O PROFESSOR E OS SETE SABERES DE MORIN
Tais considerações nos conduzem aos sete saberes fundamentais propostos por Edgar Morin:
1. As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão.
Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema e dupla face do erro e da ilusão. O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se reconhecem, em absoluto, como tais. (MORIN, 2000, p. 19).
2. Os princípios do conhecimento pertinente.
O conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido. Para ter sentido, a palavra necessita do texto, que é o próprio contexto, e o texto necessita do contexto no qual se enuncia. Desse modo, a palavra "amor" muda de sentido no contexto religioso e no contexto profano, e uma declaração de amor não tem o mesmo sentido de verdade se é enunciada por um sedutor ou por um seduzido. (MORIN, 2000, p. 36).
3. Ensinar a condição humana.
A educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária; uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em sua humanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. (MORIN, 2000, p. 47).
4. Ensinar a identidade terrena.
Como os cidadãos do novo milênio poderiam refletir sobre seus próprios problemas e aqueles do seu tempo? É preciso que compreendam tanto a condição do mundo humano, que, ao longo da história moderna, se tornou condição da era planetária. Entramos a partir do século XVI na era planetária, e encontramo-nos desde o final do século XX na fase da mundialização, (MORIN, 2000, p. 63, grifos do autor).
5. Enfrentar as incertezas.
Os séculos precedentes sempre acreditaram em um futuro, fosse ele repetitivo ou progressivo. O século XX descobriu a perda do futuro, ou seja, sua imprevisibilidade. Esta tomada de consciência deve ser acompanhada por outra, retroativa e correlativa: a de que a história humana foi e continua a ser uma aventura desconhecida. Grande conquista da inteligência seria poder enfim se libertar da ilusão de prever o destino humano. O futuro permanece aberto e imprevisível. Com certeza, existem determinantes econômicas, sociológicas e outras ao longo da história, mas estas encontram-se em relação instável e incerta com acidentes e imprevistos numerosos, que fazem bifurcar ou desviar seu curso. (MORIN, 2000, p. 79-80).
6. Ensinar a compreensão
A situação é paradoxal sobre a nossa Terra. As interdependências multiplicaram-se. A consciência de ser solidários com a vida e a morte, de agora em diante, une os humanos uns aos outros. A comunicação triunfa, o planeta é atravessado por redes, fax, telefones celulares, modems, Internet. Entretanto, a incompreensão permanece geral. Sem dúvida, há importantes e múltiplos progressos da compreensão, mas o avanço da incompreensão parece ainda maior. (MORIN, 2000, p. 93, grifos do autor).
7. A ética do gênero humano.
Os indivíduos são mais do que produtos do processo reprodutor da espécie humana, mas o mesmo processo é produzido por indivíduos a cada geração. As interações entre indivíduos produzem a sociedade e esta retroage sobre os indivíduos. A cultura, no sentido genérico, emerge dessas interações, reúne-as e confere-lhes valor. Indivíduo/sociedade/espécie sustentam-se, pois, em sentido pleno: apóiam-se, nutrem-se e reúnem-se. (MORIN, 2000, p. 105, grifos do autor).
Sobre esses saberes, um comentário:
Parece-nos que os professores capazes de ensinar esses saberes devem, além de aderir aos valores e à filosofia subjacentes, dispor da relação com o saber, da cultura, da pedagogia e da didática sem os quais esse belo programa continuaria sendo apenas letra morta (PERRENOUD, 2002, p. 13).
Esses saberes, que Morin propõe fundamentais e que as escolas deveriam ter obrigação de ensinar, servem-nos para exemplificar a necessidade da capacitação de nossos professores para que possam, com eficiência, desempenhar o seu importante papel, tanto nas escolas, dentro das salas de aula, quanto no seu próprio desenvolvimento profissional, pois a prática reflexiva tem implicação na formulação dos objetivos que os professores devem perseguir em benefício de sua própria formação.
O processo de aprendizagem do ensino é algo que deve prosseguir durante toda a carreira do professor, principalmente em tempos de globalização, quando as informações cruzam o mundo a uma velocidade espantosa através da rede mundial de computadores. A reflexividade é, portanto, atributo indispensável ao professor que deve ter internalizadas a disposição e a capacidade de buscar, durante toda sua carreira, o aperfeiçoamento e a melhoria de seu ensino. Isso vai levá-lo a melhor reproduzir, em sua prática diária, os conteúdos apreendidos durante sua formação, desde que consciente da necessidade de aperfeiçoar sua atuação pedagógica através de uma auto-análise e da constante troca de experiência com outros educadores.
Faz-se necessário que o professor, desde a sua formação, esteja consciente de que a resolução dos problemas estará sempre baseada no saber; mas, desempenhar essa função não se limita ao domínio do saber, emerge do saber fazer. E ser professor não é algo que se aprenda, porque as competências podem ser adquiridas na vida acadêmica, aprendida em livros, absorvida até mesmo do cotidiano; porém, as habilidades necessárias ao desempenho da missão de ensinar são características que nem todos possuem e, diferente de outras habilidades, não se desenvolve.
Ao contrário de outras profissões que se baseiam em conhecimentos teóricos fundamentais, com suas raízes firmando-se numa base teórica e procedimental que pode ser desenvolvida e avaliada durante a formação do profissional, no nosso caso não há quem possa ensinar a ensinar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário